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quarta-feira, 21 de julho de 2010

O PORTAL DO DRAGÃO

MATÉRIA DO MÊS DE JULHO
O PORTAL DO DRAGÃO
(Brasil Seikyo, edição nº 2041, 26/06/2010, página B1.)

“Até pouco tempo, esses acontecimentos pareciam não ter relação conosco; agora, no entanto, vemo-nos enfrentando o mesmo tipo de provação. Meu desejo é que todos os meus discípulos façam um grande juramento.”
Sobre a carta:
“O Portal do Dragão” é o título de uma comovente carta que o Buda Nitiren Daishonin, aos 57 anos, escreveu a seu jovem discípulo Nanjo Tokimitsu, em 6 de novembro de 1279. Na época, Tokimitsu estava com 21 anos e lutava para proteger os companheiros de fé que viviam sob pressão extrema da Perseguição de Atsuhara(1). O Buda Nitiren Daishonin direciona o jovem discípulo a se “armar” com o grande juramento em prol do Kossen-rufu. O presidente da SGI, Daisaku Ikeda, explanando este escrito por ocasião do 50o aniversário do Dia do Kossen-rufu em março de 2008, afirma: “Aprendamos com este escrito, que pode ser visto como fonte de inspiração do espírito de 16 de março, Dia do Kossen-rufu”.
Nanjo Tokimitsu, exemplo de discípulo:
Tokimitsu foi um jovem sucessor que praticava o Budismo Nitiren desde criança. Na adolescência, considerou Nikko Shonin — leal discípulo de Daishonin — como um irmão mais velho e sempre buscou e seguiu a orientação dele. Durante toda a vida, Nanjo Tokimitsu dedicou-se incansavelmente em propagar a Lei Mística. Esta carta foi escrita durante os momentos mais críticos da Perseguição de Atsuhara. Mesmo se expondo ao risco pessoal e com apenas 21 anos, Tokimitsu, numa demonstração de coragem, protegeu os companheiros de fé e abrigou vários deles em sua própria residência. Isso fez com que as autoridades governamentais o colocassem como alvo e adotassem diversas sanções contra ele. Pouco tempo depois, pesadas taxas foram cobradas injustamente. Tokimitsu chegou a uma situação em que mal podia manter um cavalo para o transporte pessoal ou oferecer à esposa e aos filhos roupa adequada. Na carta, Daishonin refere-se a Tokimitsu [a quem também chamavam Ueno por causa da vila que administrava] como “Ueno, o Sábio”, em louvor à incansável luta pela justiça diante dos obstáculos.
A lenda do Portal do Dragão:
O Portal do Dragão é uma cachoeira lendária da China. Algumas fontes afirmam que se localizava no trecho superior ou médio do rio Amarelo. Dizia a lenda que as carpas que conseguissem subir a cachoeira se transformavam em dragões. Daishonin descreve a cachoeira como tendo trinta metros de altura e dez tyo (mais de um quilômetro) de largura. Em outros escritos (como “Carta a Akimoto” e “A escalada do Portal do Dragão”), menciona que ela mede trezentos metros de altura e está situada no monte Tient’ai. Devido a tais divergências, é difícil chegar a uma descrição exata da cachoeira. Seja como for, a lenda diz que a força da correnteza era tão intensa que praticamente nenhuma carpa conseguia subir e chegar ao topo da cachoeira, por mais que tentasse. Além dessa dificuldade, aves de rapina e pescadores ficavam a espreita em ambas as margens para apanhá-las. Somente uma carpa capaz de superar tantos impedimentos e chegar rio acima podia se transformar em dragão com o poder de controlar a chuva, os trovões e as tormentas. A história é mencionada no clássico chinês “O Livro da Dinastia Han Posterior”. Em muitos países do Oriente, até os dias atuais, emprega-se a expressão “escalar o Portal do Dragão” como sinônimo de luta contra os obstáculos.
Explanação:
“Esses acontecimentos” Nesta frase, “esses acontecimentos” referem-se ao retrocesso na prática, por um período inconcebivelmente longo, experimentado por Shariputra e outros praticantes, que haviam recebido a “semente do estado de Buda” no remoto passado. Daishonin ressalta que seus discípulos, naquele momento, estavam se expondo a um perigo semelhante. Desnecessário dizer que ele estava se referindo à Perseguição de Atsuhara. O Buda Nitiren Daishonin diz: “Até pouco tempo, esses acontecimentos pareciam não ter relação conosco; agora, no entanto, vemo-nos enfrentando o mesmo tipo de provação”.
A única forma de repelir o feroz ataque do Rei Demônio do Sexto Céu(2) é basear a vida em um grande juramento. Não podemos evidenciar a força necessária para resistir às grandes perseguições e adversidades em prol do Sutra de Lótus se não fizermos do estado de Buda nosso supremo objetivo na vida e dedicarmos nossa existência ao grande juramento do Buda — a realização do Kossen-rufu.
O grande juramento: nossa base numa época caótica.
O Buda Nitiren Daishonin proclama das profundezas de seu ser: “Meu desejo é que todos os meus discípulos façam um grande juramento”. Esse grande juramento é o do Buda — a realização do Kossen-rufu — conforme expressa Daishonin: “O ‘grande juramento’ refere-se à propagação do Sutra de Lótus”.
Em seu exemplar pessoal dos escritos do Buda Nitiren Daishonin, o primeiro presidente da Soka Gakkai, Tsunessaburo Makiguti, sublinhou duas vezes a passagem: “Faço aqui o meu juramento”, e também escreveu na margem, em letras graúdas: “grande juramento”. Ele foi fiel a isso por toda a vida, sem jamais esmorecer diante da perseguição das autoridades militares japonesas.
Uma vida alicerçada num grande juramento é realmente profunda e inabalável. Ao basearmos totalmente a vida na Lei Mística, vasta como o oceano e firme como a terra, podemos estabelecer um estado de vida ilimitado e inabalável, uma condição de unicidade com a Lei universal. O grande juramento do budismo somente pode tornar-se realidade com o persistente desafio de atuar na sociedade e de dedicar-se o quanto for necessário para inspirar e encorajar, de todas as formas possíveis, as pessoas que conhecemos. Por isso, os presidentes Makiguti e Toda atribuíam tanta importância ao diálogo de vida a vida e às palestras. O caminho para cumprir o grande juramento do Kossen-rufu se encontra no contínuo diálogo com as pessoas ao redor para transmitir-lhes, de coração, a grandiosidade da Lei Mística, a chave da genuína felicidade. O grande juramento do Kossen-rufu somente se herda na luta compartilhada entre mestre e discípulo.Em outro escrito, Daishonin diz: “Como a gota de orvalho que se mistura com o grande oceano ou a partícula de pó que se junta à terra, [o benefício deste oferecimento] permanecerá existência após existência, sem jamais se desvanecer”(3). Dessa forma, o orvalho se torna eterno e imperecível ao fundir-se com o oceano; o pó também permanece para sempre ao fundir-se com a terra. Do mesmo modo, a vida dos que se dedicam à realização do Kossen-rufu se tornará una com o estado de Buda do Universo e repetirá eternamente o ciclo de nascimento e morte nesse estado indestrutível. Além disso, renascerão sempre para cumprir a suprema missão do Kossen-rufu no lugar e nas circunstâncias que escolheram. Nesse sentido, podemos interpretar a declaração do Buda Nitiren Daishonin de “fazer um grande juramento” como “ingressar num estado de vida eterno e insuperável”.

terça-feira, 11 de maio de 2010

AS BASES PARA ATINGIR O ESTADO DE BUDA

Matéria do Mês de Maio
AS BASES PARA ATINGIR O ESTADO DE BUDA
(Brasil Seikyo, edição nº 2032, 24/04/2010, página B1.)
“O Sutra afirma: ‘As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do Buda, e renasceram constantemente na companhia de seus mestres’(1). (...) Antes de tudo, assegure-se de que está seguindo o mestre original para que possa atingir o estado de Buda.” (Terceira Civilização, edição no 493, setembro de 2009, pág. 51.)
Resumo e cenário histórico:
Esta carta, também conhecida como “Resposta a Lorde Soya”, foi escrita por Nitiren Daishonin em 3 de agosto de 1276, aos 54 anos de idade, quando se encontrava no Monte Minobu. Presume-se que o recebedor foi Soya Jiro Hyoe-no-jo Kyoshin (1224-1291), um oficial da seção judicial do shogunato de Kamakura, que vivia na Vila Soya, na província de Shimosa, atual prefeitura de Tiba.
Soya converteu-se aos ensinos de Daishonin por volta de 1260, tornando-se um dos seus principais seguidores, junto com Toki Jonin e Ota Jomyo. Ele recebeu sete cartas de Daishonin, a maior parte das quais explica princípios significativos do budismo. Ele se manteve fiel ao Budismo de Daishonin durante toda a vida.
Tópicos da explanação do Presidente Ikeda:
A passagem “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do Buda, e renasceram constantemente na companhia de seus mestres” descreve que o mestre e o discípulo têm se dedicado juntos, desde o remoto passado, ao mesmo e grandioso juramento de bodhisattva — conquistar a própria felicidade e a de outras pessoas.
Por ocasião da cerimônia de terceiro ano de falecimento (segundo, conforme a contagem ocidental) do professor Makiguti, em novembro de 1946, o Sr. Toda, segundo presidente da Soka Gakkai disse sobre seu mestre: “O senhor, com sua imensa benevolência, permitiu-me acompanhá-lo até o cárcere. Graças a isso, pude ler com todo o meu ser a passagem do Sutra de Lótus que diz: ‘As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do Buda, e renasceram constantemente na companhia de seus mestres’. O benefício que obtive foi a compreensão de minha existência passada como Bodhisattva da Terra e absorver com minha própria vida mesmo que uma pequena parcela do significado do Sutra. Poderia haver felicidade maior que esta?”
Tais palavras solenes do Sr. Toda ficaram gravadas em meu coração desde que as ouvi, pela primeira vez, na juventude. A gratidão que sinto por meu mestre é exatamente a mesma ainda hoje.
Quem segue pelo caminho de mestre e discípulo desfruta um estado de vida indestrutível, imbuído das quatro nobres verdades — eternidade, felicidade, verdadeira identidade e pureza(2) —, em ritmo com a Lei Mística eterna. Este é um caminho de ilimitada alegria por cumprir a mais nobre missão que alguém possa ter na vida. Quero transmitir essa alegria infinita aos jovens. O coração do Sutra de Lótus e do Budismo de Nitiren Daishonin reside em ser fiel ao juramento de conduzir os outros à iluminação, dedicando-nos juntos, sem cessar, pelo caminho de mestre e discípulo, pelas três existências — passado, presente e futuro.
Por mais famosos ou bem-sucedidos que sejamos, sem um mestre, nossa vida será triste e solitária. Sem um mestre, a verdadeira vitória como seres humanos será ilusória. Possuir um mestre a quem possamos seguir por toda a vida é um dos maiores benefícios que poderíamos ter. Em agosto de 1947, conheci meu mestre Jossei Toda, que mais tarde se tornaria o segundo presidente da Soka Gakkai.
Naquele verão, aos 19 anos, tomei a decisão consciente de me tornar seu discípulo. Instintivamente, senti que podia confiar no Sr. Toda, que ele era a pessoa a quem devia adotar como mestre da vida. Com base nessa firme convicção, lancei-me a uma jornada ao lado dele, decidido a realizar uma revolução religiosa e assegurar a paz mundial duradoura. Até hoje continuo a me dedicar a essa jornada espiritual com a mesma paixão inicial.
Nesses cinquenta anos na liderança do Kossen-rufu mundial, após a morte do Sr. Toda [em abril de 1958], tenho aberto caminhos, derrubando todos os tipos de impedimentos, mantendo um permanente diálogo interior com meu mestre. Junto de vocês, meus companheiros de cada país, estabeleci as bases do Kossen-rufu mundial numa escala sem precedentes. Hoje, não tenho nada do que me arrepender. Triunfei em todas as frentes. Para mim, não há satisfação maior na vida do que poder relatar esses triunfos a meu mestre. Uma vida dedicada a concretizar os sonhos compartilhados com o mestre — eis o modo de vida mais significativo que existe. Quanto mais elevado for o ideal, mais valioso e duradouro será o legado para as gerações futuras.
O Budismo de Nitiren Daishonin nos brinda com a filosofia e a prática necessárias para termos contato com a sabedoria ­genuína, tanto em benefício próprio como para o bem dos demais. Sua força nos impele a assumir o desafio de vencer a dificuldade mais extrema e a jamais desistir. O que sustenta essa rede humana, a união de esforços dos praticantes é a relação de mestre e discípulo. Tal relação é a essência, o fator vital para a vitória nessa empreitada.
Nesta carta, “As bases para atingir o estado de Buda”, Nitiren Daishonin descreve o coração de um verdadeiro mestre budista, revelando o próprio espírito abnegado de enfrentar quaisquer dificuldades para que a água da infinita sabedoria do Buda flua e irrigue “o solo árido da vida das pessoas que habitam o mundo maléfico dos Últimos Dias”.
Quem herdou diretamente esse legado e se empenhou pelo Kossen-rufu com a mesma intenção e postura de Daishonin foram os três primeiros presidentes da Soka Gakkai, unidos pelos laços de mestre e discípulo. Junto deles, os nobres membros da Soka Gakkai — e sobretudo os pioneiros do grupo Muitos Tesouros — têm proclamado séria e sinceramente o ensino budista correto de Nitiren Daishonin no mundo inteiro.
Os membros da Soka Gakkai têm buscado ardentemente romper os espessos muros da escuridão fundamental, que tenta impedir a passagem da luz da natureza de Buda, e se dedicando a plantar as sementes da Lei Mística na vida das pessoas. Ninguém é mais forte do que os que lutam munidos com esse espírito invencível. Essas pessoas se transformaram em indivíduos de caráter notável, merecedoras de total confiança, admiradas e respeitadas dentro e fora de nossa organização. Os mestres e os discípulos Soka triunfaram!
Palavras e Frases:
(1) “As pessoas que ouviram a Lei habitaram aqui e ali, em várias terras do Buda, e renasceram constantemente na companhia de seus mestres”: Passagem do 7o Capítulo do Sutra de Lótus, Parábola da Cidade Imaginária.
(2) Eternidade, felicidade, verdadeira identidade e pureza: Quatro nobres qualidades que descrevem a real natureza da vida do Buda, pura e eterna, capaz de manifestar a sua verdadeira identidade e a absoluta felicidade. Como todas as pessoas possuem a natureza do Buda, podem desenvolver estas quatro virtudes quando alcançam o estado de Buda.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

AMENIZAR O EFEITO CÁRMICO

Matéria do Mês de Abril de 2010
AMENIZAR O EFEITO CÁRMICO
(Brasil Seikyo, edição nº 2028, 27/03/2010, página B1.)
"O Sutra do Nirvana expõe o princípio de amenizar o efeito cármico. Se uma pessoa deixa de expiar seu pesado carma passado na presente existência, ela experimentará os sofrimentos do inferno no futuro; mas se ela enfrenta grandes obstáculos nesta vida [por causa do Sutra de Lótus], os sofrimentos do inferno desvanecer-se-ão instantaneamente. E quando essa pessoa morrer, ela será agraciada pelos mundos humano e celestial [os estados de Tranquilidade e Alegria] e também pelos mundos dos três veículos [os estados de Erudição, Absorção e Bodhisattva] e do veículo único [o estado de Buda]." Os Escritos de Nitiren Daishonin, vol. 3, pág. 127
(Explanação do presidente Ikeda, Terceira Civilização, edição no 491, julho de 2009.)
Resumo e cenário Histórico:
Esta carta escrita por Nitiren Daishonin em 5 de outubro de 1271, apenas três semanas após quase ter sido executado em Tatsunokuti, foi enviada a três discípulos, Ota Jomyo, Soya Kyoshin e Kimbara Hokkyo. Ela esclarece o significado das adversidades e dos obstáculos que os praticantes do Sutra de Lótus têm de enfrentar. Explica também o princípio de amenizar o efeito cármico ou de transformar o destino, base do Budismo de Nitiren Daishonin.
A doutrina da transformação cármica exposta no Budismo Nitiren é um princípio inigualável de triunfo que infunde esperança, coragem e convicção a todas as pessoas. Incorpora uma filosofia de supremo humanismo que revela a cada indivíduo o poder inerente em todas as pessoas de superar os embates do destino. Constitui também um princípio de respeito absoluto à dignidade da vida e expõe a causa fundamental que nos possibilita manifestar esse poder. Em síntese, representa um ensino cheio de esperança para toda a humanidade, que ilumina o poder latente inato na vida de cada pessoa.
Neste escrito, percebemos o estado de vida monumental de Daishonin, sobretudo na postura de enxergar as grandes dificuldades como oportunidades para atingir o estado de Buda. Daishonin esclarece uma verdade comum ao budismo e à existência humana: as adversidades são parte da vida. E nos encorajam a não sermos intimidados por elas.
Enfrentar grandes dificuldades pelo bem do Sutra de Lótus é o caminho que conduz diretamente à iluminação. Portanto, não há nada a temer. Não há causa maior de felicidade. Esse era, sem dúvida, o estado de vida de Daishonin.
Tópicos da explanação do Presidente Ikeda:
Amenizar o efeito cármico é um princípio que consta no Sutra do Nirvana. O ideograma chinês com que o termo é escrito significa, literalmente, “transformar o pesado e recebê-lo de modo leve”. A ideia de carma geralmente aceita nos tempos de Daishonin era a de que se uma pessoa acumulou causas muito graves em vidas passadas, impossíveis de ser totalmente expiadas no curso desta, deveria passar por um sofrimento infernal em existências futuras antes dessa retribuição terminar. Porém, o princípio da retribuição cármica exposto por Daishonin dizia que uma pessoa podia expiar até o carma mais negativo arrastado desde existências passadas, recebendo nesta um efeito amenizado ou mais leve.
No Budismo de Nitiren Daishonin, a teoria do carma é um ensino que encoraja e revitaliza as pessoas. Ensina que não existe carma negativo ou pesado impossível de ser transformado positivamente. Nesta carta, a doutrina de Daishonin sobre a transformação do carma ou destino é analisada de um ponto de vista particular: a amenização do efeito cármico.
Há dois pontos importantes referentes a amenização ressaltados nesta carta. O primeiro diz respeito a uma declaração feita por Daishonin quando afirma: “Os sofrimentos do inferno desvanecer-se-ão instantaneamente”. Daishonin está querendo nos dizer que mesmo o carma que gera uma retribuição de sofrimento infernal pode ser expiado neste exato instante; não gradativamente, ou em algum momento hipotético e distante no futuro. É assim em virtude de um princípio conhecido como “possessão mútua dos Dez Mundos”.
Em geral, é dito que o carma é formado por causas passadas que se manifestam como efeitos no presente. Nesse raciocínio, há uma brecha temporal entre a causa e o efeito, ou seja, não são simultâneos. Mas o Budismo de Nitiren Daishonin ensina que o carma pode ser transformado por meio da manifestação do estado de Buda inerente em cada um de nós. Assim como a miríade de estrelas no céu noturno desaparece quando o sol nasce, o número inimaginável de carma negativo acumulado que há em nossa vida pode ser neutralizado quando fazemos surgir em nós o estado de Buda.
O segundo ponto — sumamente importante — é que amenizar o efeito de nosso carma é, ao mesmo tempo, o portal que nos conduz a manifestar o estado de Buda nesta existência. No escrito, Daishonin declara: “Os sofrimentos do inferno desvanecer-se-ão instantaneamente. E quando essa pessoa morrer, ela será agraciada com os benefícios dos mundos humano e celestial [os estados de Tranquilidade e Alegria] e também dos mundos dos três veículos [os estados de Erudição, Absorção e Bodhisattva] e do veículo único [o estado de Buda]”.
De acordo com essa declaração, o “benefício do veículo único” é o benefício de atingir o estado de Buda.
Amenizar o efeito cármico não é um simples balanço ou acerto em nossas “contas cármicas”; implica uma transformação fundamental em nossa vida, que nos possibilita pôr fim ao ciclo negativo de sofrimento e ilusão e entrar numa nova órbita positiva de felicidade. Quando assim fazemos, podemos desfrutar, existência após existência, os benefícios dos estados superiores, como os de Tranquilidade, Alegria, Erudição, Absorção, Bodhisattva e Buda.
Isso quer dizer que amenizar o efeito cármico conduz diretamente ao grande caminho do estado de Buda. Cabe ressaltar que amenizar o efeito cármico não significa zerar uma conta negativa, mas imprimir, nas profundezas da vida, uma mudança de rumo fundamental — que nos afaste de uma espiral decadente, conduzindo-nos a uma infinita espiral de crescimento, e que nos tire de uma órbita negativa para nos pôr numa trajetória de felicidade. Assim é o poder da Lei Mística. Ela tem a capacidade de transformar o negativo em algo benéfico, ou seja, transformar o veneno em remédio.
A doutrina de amenizar o efeito cármico, segundo o Budismo de Nitiren Daishonin, nada mais é que redirecionar nossa vida à felicidade, neste exato momento e neste exato local. Portanto, transformar o carma é mudar as tendências internas que nos mantêm prisioneiros do negativismo e da infelicidade e entrar no caminho de avanço construtivo.
Por essa razão, o momento atual, em que conduzimos essa luta, é de vital importância. Em “Abertura dos olhos”, Daishonin cita uma passagem do Sutra Contemplação da Mente-Solo, na qual se lê: “Se deseja saber que causas foram feitas no passado, observe os resultados que se manifestam no presente. E se deseja saber que resultados serão manifestados no futuro, observe as causas que estão sendo feitas no presente”. Nosso presente é resultado ou efeito de causas passadas. Por sua vez, o presente é a causa que formará o nosso futuro. As três existências — passado, presente e futuro — estão contidas no presente, neste instante. Torna-se, portanto, vital mudarmos a atitude ou postura básica neste momento. Isso porque nossa determinação e nossas ações no momento presente nos dão a possibilidade de criar livremente o futuro.
O ensino de Daishonin sobre a transformação do carma abre o caminho para uma brilhante revolução de esperança, que liberta as pessoas de suas ideias fatalistas e obscuras sobre o carma ou destino.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

RETRIBUIÇÃO AOS DÉBITOS DE GRATIDÃO

Matéria do Mês de Fevereiro (2010)
RETRIBUIÇÃO AOS DÉBITOS DE GRATIDÃO
(Brasil Seikyo, edição nº 2021, 30/01/2010, página B1.)
“Se a benevolência de Nitiren for realmente grande e abrangente, o Nam-myoho-rengue-kyo propagar-se-á por dez mil anos e mais, por toda a eternidade, pois esta (a benevolência de Nitiren em propagar o Nam-myoho-rengue-kyo) possui o poder benéfico de abrir os olhos cegos de todos os seres vivos do Japão e de bloquear a estrada que leva ao inferno de incessante sofrimento.” As Escrituras de Nitiren Daishonin, vol. 4, pág. 91 (Explanação do presidente Ikeda, Terceira Civilização, edição no 495, novembro de 2009.)
Resumo e cenário histórico:
Retribuição aos Débitos de Gratidão é um dos dez escritos mais importantes de Nitiren Daishonin. Datado de 21 de julho de 1276, pouco mais de dois anos após Daishonin ter se retirado para o Monte Minobu, foi motivado pela notícia da morte de Dozen-bo, o sacerdote chefe do templo Seityoji, na província de Awa, mestre de Nitiren Daishonin quando ele ingressou no templo ainda menino, com doze anos. Logo após receber a notícia, Daishonin escreveu este tratado como uma expressão de gratidão a Dozen-bo, e o enviou a Joken-bo e Guijo-bo, seus antigos seniores em Seityoji que, posteriormente, tornaram-se seus seguidores. Daishonin anexou uma mensagem, instruindo-os a lerem o texto em voz alta diante do túmulo de Dozen-bo.
Em 1233, Daishonin havia ingressado no templo Seityoji para estudar o budismo com Dozen-bo como seu mestre. Naquela época, os templos seriam como centros de conhecimento e de religião. Mais tarde, aos trinta e dois anos de idade, Daishonin retornara ao templo Seityoji após mais de dez anos de estudo em templos de Quioto, Nara e outros principais centros de ensino budista. E, na manhã do dia 28 de abril de 1253, Nitiren Daishonin recitou pela primeira vez, a Lei suprema, o Nam-myoho-rengue-kyo.
Na parte inicial dessa carta, Daishonin afirma que as pessoas que estudam o budismo deveriam pagar seus débitos de gratidão para com os seus pais, mestres, os três tesouros do budismo e soberanos. Ele enfatiza a importância de saldar a gratidão como um aspecto fundamental do comportamento humano. Em seguida, declara que para se pagar tal dívida, a pessoa deve dominar a verdade do budismo e atingir a iluminação, praticando o ensino budista correto.
Em sua explanação, o presidente da SGI, Daisaku Ikeda, afirma: “O ato de reconhecer as dívidas de gratidão é característico do espírito do budismo, que visa cultivar a mais rica humanidade possível. Saldar as dívidas de gratidão é próprio de uma vida sábia, capaz de vencer a escuridão ou a ignorância mais profunda. Por isso, a vida dos praticantes budistas genuínos sempre resplandece com a luz interior do reconhecimento e da gratidão”.
Em outro trecho, ele descreve: “A revelação dos Três Grandes Ensinos Fundamentais(1) pode ser interpretada como uma forma de Daishonin saldar completamente a dívida de gratidão para com os pais, todos os seres vivos e a nação. Esse fato também pode ser visto como um revigorante ponto de partida na vida de Daishonin para a realização do Kossen-rufu mundial — o meio de saldar as dívidas de gratidão à humanidade e ao mundo. Dessa forma, a vida inteira de Daishonin foi uma grande epopeia para saldar as dívidas de gratidão”.
Explanação:
Esta frase consta na parte final deste escrito na qual Daishonin declara que o seu ensino é tão profundo que salvará as pessoas pelos dez mil anos dos Últimos Dias da Lei e mais, por toda a eternidade. Esclarece o imensurável benefício do Nam-myoho-rengue-kyo dos Três Grandes Ensinos Fundamentais, a grande Lei para a iluminação de todas as pessoas a ser propagada no futuro eterno.
Na explanação deste escrito, o presidente Ikeda faz as seguintes observações:
“O que levou Daishonin a revelar o Nam-myoho-rengue-kyo, foi sua atuação repleta de benevolência para identificar e propagar o ensino correto. Nisso, vemos a monumental convicção do Buda de que, em resposta a essa determinação profunda, o Nam-myoho-rengue-kyo se propagaria e conduziria a humanidade à iluminação, pelo infinito futuro dos Últimos Dias.
“Nesse trecho também são salientadas as três virtudes de Daishonin: as virtudes de soberano, mestre e pais. ‘Se a benevolência de Nitiren for realmente grande e abrangente’ indica a virtude de pais; ‘possui o poder benéfico de abrir os olhos cegos de todos os seres vivos’ representa a virtude de mestre; e ‘bloquear a estrada que leva ao inferno de incessante sofrimento’ é a virtude de soberano.
“A virtude de pais representa a função de nutrir e cuidar das pessoas. Daishonin conseguiu estabelecer a Lei suprema para a iluminação de todas as pessoas visando ao futuro infinito dos Últimos Dias, precisamente porque ele mesmo enfrentou e venceu inúmeras adversidades e perseguições.
“Essa benevolência grandiosa e abrangente mencionada neste trecho não se manifestou em condições sociais pacíficas e tranquilas. Foi durante uma época imersa nos três venenos — avareza, ira e estupidez (2) — e enquanto lutava contra os três poderosos inimigos (3) do budismo que ele iniciou o movimento do Kossen-rufu pelo bem das futuras gerações. A profundidade e a amplitude da benevolência de Daishonin são incomparáveis.
“A virtude de mestre representa a função de conduzir as pessoas ao caminho correto. Na expressão ‘os olhos cegos de todos os seres vivos do Japão’, Daishonin naturalmente não está se referindo a uma deficiência física, mas à incapacidade das pessoas de reconhecer a natureza do Darma inerente por causa da ignorância ou escuridão fundamental. Ele mesmo deu exemplo de luta contra os três obstáculos e as quatro maldades (4) como devoto do Sutra de Lótus, com o objetivo de fazer as pessoas questionarem as convicções em crenças errôneas, despertando-as para uma filosofia de vida correta.
“A virtude de soberano representa a função de proteger os demais. Daishonin fala de ‘bloquear a estrada que leva ao inferno de incessante sofrimento’. Essa é a manifestação do profundo e irrefreável desejo de não permitir que uma única pessoa caia nessa condição de vida atroz. É impossível assegurar o bem-estar de todas as pessoas sem assumir o compromisso absoluto de erradicar o sofrimento e a miséria da face da Terra.
“Não nos esqueçamos de que Daishonin demonstrou com a própria vida as três virtudes — soberano, mestre e pais — por meio de uma batalha férrea e incondicional para propagar o ensino correto na era maléfica dos Últimos Dias da Lei.
“Herdeiros do espírito altruísta de Daishonin, os mestres Tsunessaburo Makiguti e Jossei Toda levantaram-se para concretizar o ideal do Kossen-rufu na sociedade. Graças ao surgimento da Soka Gakkai — uma organização dedicada a realizar o desejo ou o decreto do Buda —, o ‘grande rio do Kossen-rufu’ que tem em Nitiren Daishonin a fonte, flui poderosamente pelo mundo inteiro, no século 21. Isso é um fato inquestionável. Já estabelecemos por completo as bases do Kossen-rufu mundial. Chegou, enfim, o momento de estender este grande rio e convertê-lo num ‘oceano do Kossen-rufu’ que envolva o globo.”
Nitiren Daishonin continuou a recitar Daimoku e a ensinar aos outros essa prática “sem poupar a voz” durante toda a sua existência, avançando pelo caminho de sua missão para propagar a Lei Mística nos Últimos Dias da Lei. Seus esforços para bradar e propagar o ensino correto, sem reservas, simboliza o espírito de “não poupar a própria vida”. Neste contexto, o presidente Ikeda nos orienta que não podemos nos limitar a apenas recitar Daimoku individualmente, sem incentivar os outros a fazerem o mesmo, pois desta forma não atingiremos a ampla propagação da Lei entre as pessoas desta época cheia de sofrimentos, conhecida como os Últimos Dias. Ele ainda diz que não haverá transformação na vida das pessoas a menos que elas vençam a ignorância ou escuridão que possuem inerente e ensinem outros a fazerem o mesmo.
Palavras e frases:
(1) Três Grandes Ensinos Fundamentais (ou Três Grandes Leis Secretas): Princípios centrais do ensino de Nitiren Daishonin. Eles são: o objeto de devoção do ensino essencial; o Daimoku do ensino essencial; e o santuário do ensino essencial. São assim chamados porque estão implícitos no texto do 16o capítulo do Sutra de Lótus, “Revelação da Vida Eterna do Buda”, e permaneceram desconhecidos até que Daishonin os revelou.
(2) Três venenos (avareza, ira e estupidez): Males fundamentais inerentes à vida que originam o sofrimento humano. Na obra “Tratado sobre a Grande Perfeição da Sabedoria”, de Nagarjuna, os três venenos são vistos como a fonte de todas as ilusões e desejos mundanos. São assim chamados porque contaminam a vida das pessoas e as impedem de voltar o coração e a mente para o bem.
(3) Três poderosos inimigos: Três tipos de pessoas arrogantes que perseguem os que propagam o Sutra de Lótus na era maléfica posterior à morte do Buda. São descritos no trecho em verso de vinte linhas, que consta no 13o capítulo do Sutra de Lótus, “Devoção Encorajadora”. O Grande Mestre Miao-lo, da China, classifica os três poderosos inimigos em: (1) leigos arrogantes; (2) sacerdotes arrogantes; e (3) sábios falsos e arrogantes.
(4) Três obstáculos e quatro maldades: Vários obstáculos e impedimentos à prática budista. São classificados no Sutra do Nirvana e no Tratado sobre a Grande Perfeição da Sabedoria, de Nagarjuna. Os três obstáculos são: (1) o obstáculo dos desejos mundanos, que surgem dos três venenos — avareza, ira e estupidez; (2) o obstáculo do carma, ou resistências derivadas do mau carma criado por ter cometido algum dos cinco atos malignos ou dos dez maus atos; (3) o obstáculo da retribuição, causados pelos efeitos cármicos negativos de ações cometidas nos três maus caminhos (estados de Inferno, Fome e Animalidade). As quatro maldades são: (1) o impedimento dos cinco componentes ou obstruções causadas por nossas funções físicas e mentais; (2) impedimento dos desejos mundanos ou obstruções causadas pelos três venenos (avareza, ira e estupidez); e (3) impedimento da morte, devido à própria morte do praticante ou à morte prematura ou intempestiva de um seguidor, gerando dúvidas nos demais; e (4) impedimento do Rei Demônio do Sexto Céu, função destrutiva que se vale de diversas pessoas e circunstâncias para fazer com que o praticante budista abandone a fé. É considerado como o impedimento mais difícil de ser superado.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

CARTA DE ANO NOVO

Matéria do Mês de Janeiro (2010)
"Recebi cem bolinhos de arroz cozidos a vapor e um cesto de doces. O dia de Ano-Novo marca o primeiro dia, o primeiro mês, o início do ano e o início da primavera. Quem celebra esse dia tornar-se-á mais virtuoso e será amado por todos. Será como a lua que gradualmente se torna cheia à medida que se move do oeste para o leste ou como o sol que se torna cada vez mais brilhante em sua trajetória do leste para o oeste. Considerando a questão de onde estão o inferno e o Buda, um sutra diz que o inferno está debaixo da terra enquanto um outro diz que o Buda está no oeste. Entretanto, uma análise mais cuidadosa revela que ambos existem em nosso próprio corpo. De fato, o inferno está no coração da pessoa que insulta seu pai ou desrespeita sua mãe. É como a semente de lótus que contém tanto a flor como o fruto. Da mesma forma, o Buda habita nosso coração. Por exemplo, a pederneira contém o potencial para produzir fogo e as joias possuem um valor intrínseco. Nós, seres humanos, não enxergamos nem nossos próprios cílios, que estão tão próximos, nem o céu distante. Da mesma maneira, não conseguimos compreender que o Buda existe em nosso coração. Podemos questionar como poderia existir o Buda dentro de nós se este corpo humano, gerado do sangue dos nossos pais, é a origem das três impurezas e o local dos desejos carnais. Entretanto, ponderando reiteradamente, compreendemos ser razoável. A pura flor de lótus floresce do fundo lamacento de um lago; a fragrância do sândalo cresce da terra; as graciosas flores de cerejeira vêm da árvore; a bela Yang Kuei-fei nasceu de uma mulher de classe inferior; e a lua nasce detrás das montanhas para espalhar a luz sobre elas. A desgraça vem da boca de uma pessoa e arruína-a, enquanto a boa sorte vem do coração e torna a pessoa digna de respeito. A sinceridade de fazer oferecimentos ao Sutra de Lótus no início do Ano-Novo é como as flores de cerejeira que desabrocham da árvore, uma flor de lótus que se abre em um lago, as flores de sândalo que desprendem sua fragrância na Montanha das Neves, ou como a lua começando a subir. Agora, o Japão, fazendo-se inimigo do Sutra de Lótus, convidou o infortúnio de mil milhas de distância, ao passo que aqueles que crêem no Sutra de Lótus reúnem a boa sorte de dez mil milhas de distância. A sombra é formada pelo corpo e tal como a sombra segue o corpo, os infortúnios cairão no país cujas pessoas são hostis ao Sutra de Lótus. Os crentes no Sutra de Lótus, por outro lado, são como o sândalo dotado de fragrância. Eu lhe escreverei novamente. Nitiren. Quinto dia do primeiro mês. Em resposta à esposa de Omosu."
Resumo e cenário histórico
Nitiren Daishonin escreveu esta carta para a esposa de Omosu, irmã mais velha de Nanjo Tokimitsu, em agradecimento pelos sinceros oferecimentos enviados por ela no início do ano. A carta é datada de 5 de janeiro, porém sem a indicação do ano. Assim, embora se saiba que Nitiren Daishonin tenha escrito esta carta no Monte Minobu, nos últimos anos de sua vida, o ano exato não é conhecido.
O Ano-Novo sempre foi considerado uma época de deixar o passado para trás e começar de novo. De acordo com o calendário lunar japonês utilizado na época de Daishonin, o Ano-Novo coincidia também com o início da primavera.
Quando uma pessoa se dedica seriamente à prática budista, é a sua fé no presente, e não o seu carma do passado, que exerce a influência determinante em sua vida. Assim, com esse grande poder da fé, nós podemos “começar a partir de agora”, em qualquer momento que nós determinarmos. Contudo, o dia de Ano-Novo é uma ocasião especificamente destacada para esse propósito, quando toda atmosfera que nos cerca apoia o espírito de começar renovadamente. Nitiren Daishonin nos ensina que celebrar esse dia fazendo oferecimentos ao Gohonzon é uma fonte de imensa boa sorte. O ato de fazer oferecimentos no Ano-Novo serve para expressar tanto a nossa gratidão como a decisão de continuar a prática budista, aprofundando ainda mais a nossa fé no ano que se inicia.
O budismo ensina que o presente momento abrange o futuro, e que cada causa contém o seu efeito. Nesta perspectiva, a maneira como saudamos o Ano-Novo é bastante importante. Uma grande diferença pode resultar entre considerá-lo um dia a mais entre muitos outros, ou como um novo início que abriga em si as sementes do desenvolvimento do ano inteiro.
Explanação
“A pura flor de lótus floresce do fundo lamacento de um lago; a fragrância do sândalo cresce da terra; as graciosas flores de cerejeira vêm da árvore; a bela Yang Kuei-fei nasceu de uma mulher de classe inferior; e a lua nasce detrás das montanhas para espalhar a luz sobre elas. A desgraça vem da boca de uma pessoa e arruína-a, enquanto a boa sorte vem do coração e torna a pessoa digna de respeito.”
No trecho anterior, em relação à “questão de onde estão o inferno e o Buda”, Daishonin afirma que “uma análise mais cuidadosa revela que ambos existem em nosso próprio corpo”. Apesar de falhos e imperfeitos, todos possuímos o poder para manifestar o estado de Buda. Daishonin ilustra esse fato com exemplos de algo magnífico emergindo de algo comum. A pura flor de lótus floresce no lodo, a perfumada madeira de sândalo cresce em meio à sujeira, e a mais bela mulher da China, Yang Kuei-fei (719–756), predileta do imperador Hsiian-Tung, o sexto soberano da dinastia T’ang, era de origem humilde. Assim como a lua brilhante surge detrás da escuridão das montanhas para iluminá-las, a nossa natureza de Buda, ativada pela recitação do Nam-myoho-rengue-kyo, emergirá do interior de nossa vida e a fará brilhar.
Como temos em nosso interior o potencial tanto para o sofrimento como para a felicidade, Daishonin nos ensina com a frase “A desgraça vem da boca de uma pessoa e arruína-a, enquanto a boa sorte vem do coração e torna a pessoa digna de respeito” que nossa condição de vida predominante depende, no final, de nós mesmos. Nesse contexto, “a desgraça vem da boca de uma pessoa e arruína-a” representa uma atitude caluniosa ou depreciativa em relação à Lei, ou à dignidade inata da vida. Como praticantes do Budismo Nitiren, em princípio não cometemos a calúnia fundamental de afrontar diretamente o próprio Gohonzon. Mas, quando lamentamos nossos sofrimentos, estamos na verdade nos esquecendo e, consequentemente, menosprezando o poder do Gohonzon e nossa própria natureza de Buda que pode nos capacitar a vencer nossas dificuldades. Além disso, quando depreciamos os companheiros da prática da fé por suas falhas — por mais que estes realmente tenham cometido erros — nós, de certo modo, menosprezamos o poder da prática para fazê-los aprender e elevar seu estado de vida. Tudo isso pode ser entendido como um exemplo de “desgraça que vem da boca”.
Já “a boa sorte vem do coração” indica a fé na Lei Mística. Inclinações mentais positivas, como a sinceridade elogiada por Nitiren nessa carta, bem como a alegria, consideração, paciência e benevolência são, todas, fontes de mérito e de bom carma. Momento a momento, criamos nosso destino com nossos pensamentos, palavras e ações. Esses “três tipos de atos” são as três vias abertas ao ser humano para criar o carma, seja ele bom ou mau. Assim, com fé no coração, podemos edificar o melhor carma de todos.
“Coração” também pode ser entendido como um momento de vida, ou itinen. A vida de um indivíduo, a cada instante, manifesta um dos Dez Mundos que se torna a base de seus pensamentos, palavras e ações naquele momento. Portanto, é importante elevar a tendência básica de nosso momento de vida para que as causas que fazemos se originem dos estados mais elevados, em vez dos estados inferiores. Um coração de fé é aquele que nos permite elevar a nós próprios acima das quatro condições inferiores (Inferno, Fome, Animalidade e Ira) e estabelecer o estado de Buda como nossa tendência básica de vida.
“A sinceridade de fazer oferecimentos ao Sutra de Lótus no início do Ano Novo é como as flores de cerejeira que desabrocham da árvore, uma flor de lótus que se abre em um lago, as flores de sândalo que desprendem sua fragrância na Montanha das Neves, ou como a lua começando a subir. Agora, o Japão, fazendo-se inimigo do Sutra de Lótus, convidou o infortúnio de mil milhas de distância, ao passo que aqueles que creem no Sutra de Lótus reúnem a boa sorte de dez mil milhas de distância. A sombra é formada pelo corpo e tal como a sombra segue o corpo, os infortúnios cairão no país cujas pessoas são hostis ao Sutra de Lótus. Os crentes no Sutra de Lótus, por outro lado, são como o sândalo dotado de fragrância."
Como a sinceridade na fé é, podemos dizer, o primeiro passo na jornada da iluminação, Nitiren Daishonin elogia nessa passagem a expressão de tal sinceridade no Ano-Novo, comparando-a às “flores de cerejeira que desabrocham de uma árvore, uma flor de lótus que se abre em um lago, as flores de sândalo que desprendem sua fragrância na Montanha das Neves, ou como a lua começando a subir”. Essas ilustrações são bastante similares às usadas na parte anterior para descrever a manifestação da natureza de Buda a partir do interior da vida do mortal comum. Antes de abraçar o Gohonzon, somos como árvores de cerejeira sem flores, um lago turvo sem flor de lótus, ou a lua antes de se elevar. Em outras palavras, ainda temos de manifestar o estado de Buda. Nós geramos a iluminação interiormente por meio de oferecimentos ao Sutra de Lótus. Os oferecimentos incluem não somente doações materiais como frutas depositadas no oratório ou doações financeiras, mas a dedicação de nossa vida à Lei Mística. Gongyo e Daimoku são os oferecimentos fundamentais pelos quais manifestamos o Estado de Buda. Nossos esforços para ensinar a prática da recitação do Nam-myoho-rengue-kyo a outras pessoas e para provar a sua validade na sociedade também são oferecimentos importantes. O próprio espírito revigorado de devotar a vida ao budismo, como expressado nas resoluções de Ano-Novo, constitui “oferecer presentes ao Sutra de Lótus”. Uma resolução, contudo, é também uma promessa que devemos nos empenhar para cumprir, caso realmente desejamos reunir “a boa sorte de dez mil milhas de distância”.
O Sutra de Lótus, nesta passagem, indica o Nam-myoho-rengue-kyo dos Três Grandes Ensinos Fundamentais, a realidade última ou Lei Mística que permeia o Universo e todas as existências fenomenais dentro dele. A atitude de uma pessoa com relação a essa Lei – empenhar-se para despertar para ela, louvá-la e tomá-la como base de sua vida, ou, por outro lado, permanecer na ignorância sobre a mesma e caluniá-la – determinará sua felicidade ou infelicidade e influenciará todos os aspectos de sua vida. Isto é o que Daishonin quer dizer com a “sombra é formada pelo corpo...”. Harmonizando a vida com a Lei, a pessoa ganha sabedoria e boa sorte. Agindo contra ela, forma sua ilusão e sofre perdas. Está fora de questão, na perspectiva budista, a existência de qualquer agente sobrenatural que conceda benefício ou punição. Ganho ou perda são ações naturais da Lei Mística.
Da mesma maneira, um país onde as pessoas baseiam sua vida na Lei Mística prosperará, enquanto aquele no qual as pessoas são ignorantes da Lei e, consequentemente caluniam a dignidade da vida, sofrerá o infortúnio. Quanto ao Inferno e ao Buda, como “ambos existem em nossos próprios corpos”, um país onde as pessoas abraçam a Lei se tornará a terra do Buda, ao passo que um país onde as pessoas se desprezam e oprimem-se mutuamente se transformará num inferno vivo. Isto concorda com o princípio budista da unicidade da vida e do ambiente (esho funi). Nesta perspectiva, podemos estar confiantes de que, abraçando a Lei Mística e ensinando os outras a fazerem o mesmo, estamos firmando a base não somente para a nossa realização como indivíduos, mas para a paz e prosperidade de nosso país e do mundo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O VERDADEIRO ASPECTO DE TODOS OS FENÔMENOS

Matéria do Mês de Dezembro (2009)
Exerça-se nos dois caminhos da prática e do estudo. Sem eles, não pode haver budismo. Deve não somente perseverar em sua fé, mas também ensinar aos outros. Tanto a prática como o estudo surgem da fé. Ensine aos outros com o melhor de sua habilidade, mesmo que seja uma única sentença ou frase. (Os Escritos de Nitiren Daishonin, Vol. 5, pág.: 8)
Explanação
Nesse escrito, Nitiren Daishonin mostra a importância dos três ingredientes essenciais para a prática do budismo, que são "Fé, prática e estudo". Quando se flaha em um desses três itens, não se pode aprofundar nem fortalecer a prática da fé.
É fé no Gohonzon é a base fundamental do exercício budista. No escrito "Resposta à Dama Nitinyo", consta: "O mais importante é recitar somente o Nam-myoho-rengue-kyo de tal modo que possa alcançar o estado de buda. Tudo depende da força de sua fé." (END, Vol. 1, pág.: 326)
A "prática" possui dois aspectos: A Prática Individual, que corresponde a recitação diária do Gongyo e do Daimoku; e a Prática Altruística, que refere-se a propagar o ensino, portanto, corresponde a dedicar-se as atividades em prol do Kossen-rufu, conforme a frase: "Ensine aos outros com o melhor de sua habilidade, mesmo que seja uma única sentença ou frase."
O "Estudo" consiste essencialmente ao estudo dos Escritos de Nitiren Daishonin. O objetivo do estudo é aprofundar a fé e fortalecer a prática. O estudo teórico sem uma ação prática correspondente não nos permitirá manifestar o estado de buda inerente em nossas vidas. É por essa razão que Nitiren afirma: "Tanto a prática como o estudo surgem da fé."
Em suma, o budismo não está contido somente nos sutras, livros ou nos caracteres com que são escritos. Nem mesmo é encontrado nos templos. O budismo existe e manifesta-se somente na vida das pessoas que estudam os escritos e praticam com base na fé, de acordo com os ensinos de Nitiren Daishonin. A verdadeira correnteza do budismo floresce e vive no encorajamento mútuo entre os praticantes. Assim será possível aplicar o budismo na vida diária e avançar na revolução humana.
Como resultado do empenho na prática e no estudo, pode-se experimentar a grandiosidade do budismo na vida diária pela comprovação dos benefícios, o que torna a fé ainda mais forte e inabalável.Em uma de suas orientações, o presidente Ikeda relembra algumas citações do segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda, sobre a importância da filosofia: “Por que precisamos de filosofia? Por que nossa vida precisa do Budismo de Daishonin? Se fosse suficiente fazer as coisas apenas conforme nosso desejo, não haveria nenhuma necessidade de irmos para a escola e estudar nem de ter uma fé religiosa. Mas, se seguirmos por esse rumo, mais tarde ficaremos arrependidos. Ao contrário, que inacreditável alegria há em estudar filosofia, estudar o budismo e descobrir as profundezas da vida e, com base nisso, buscar e conquistar a verdadeira e duradoura felicidade com o coração aberto e uma profunda emoção. Que imensurável satisfação é conhecer a natureza profundamente extraordinária da vida e sentir nosso ser transbordante de ilimitada alegria! Leiam os escritos de Daishonin mais atentamente. Tudo de que precisam está escrito lá. Se fizerem com que os escritos de Daishonin se tornem sua base, nunca serão abalados por nenhum problema que enfrentarem. Se se fundamentarem no supremo valor da Lei Mística, sempre saberão como proceder”. (Brasil Seikyo, edição nº 2009, 31 de outubro de 2009, pág. A3.)